Sobre medicamentos e a forma correta de usá-los no tratamento psiquiátrico

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Por Marco Andre Mezzasalma, psiquiatra

Em meu artigo anterior, desfiz algumas mitos, comuns quando se lida com a Psiquiatria. Hoje, quero tratar de outro tema sensível, os medicamentos disponíveis para tratamento de pacientes psiquiátricos: sua indicação, como agem, por que é essencial que sua prescrição seja feita apenas por um psiquiatra ou algum médico que tenha experiência de lidar com eles.

Para começar, um pouco de história… O primeiro antipsicótico, a Clorpromazina – originariamente, usada como anestésico em cirurgias – tem relatos iniciais de sua aplicação neste campo no início dos anos 1950, após a constatação de um paciente ao despertar após a cirurgia de que não escutava mais as vozes que antes o atormentavam. Tinha início a psicofarmacoterapia.

O tratamento da Tuberculose também forneceu subsídios importantes à Psiquiatria: a constatação de que alguns medicamentos usados para o tratamento de pacientes em asilos tinham como efeito deixá-los menos tristes e prostrados levou à descoberta dos primeiros antidepressivos.

Pelo princípio da engenharia reversa, cientistas partiram daqueles medicamentos para desenvolver produtos que atuassem para trabalhar a neurotransmissão de noradrenalina, dopamina e serotonina, hormônios com grande ação sobre o humor, a ansiedade, o sono e a alimentação.

Os primeiros antidepressivos atuavam em vários neurotransmissores ao mesmo tempo, e eram classificados como “drogas sujas”. Em seguida, buscou-se encontrar substâncias que agissem em sistemas específicos, e surgiu a Fluoxetina, que atuava apenas na serotonina. De lá para cá, houve vários avanços, e hoje temos antidepressivos multimodais.

Nós, psiquiatras, lançamos mão deles na tentativa, por meio da manipulação da neurotransmissão cerebral, de corrigir quadros clínicos que vão de transtornos alimentares a transtornos de humor, passando pelos de ansiedade. Estamos falando de um espectro amplo, que inclui depressão, pânico, ansiedade generalizada, transtornos obsessivos compulsivos (TOC), transtornos de ansiedade social.

Se incluirmos uso off-label – uso de remédios que não seguem as indicações homologadas -, vemos que antidepressivos podem ser usados até por urologistas no tratamento da ejaculação precoce – que tem forte componente de ansiedade.

Os antidepressivos são medicamentos que não provocam dependência e promovem mudanças no funcionamento cerebral, justamente por facilitar a neurotransmissão e circuitos específicos. Como alteram a forma como o DNA das células neuronais são lidas – seu “manual de instruções -, leva em torno de duas semanas para que seu efeito comece a ser sentido.

Outra categoria de medicamentos psiquiátricos é a dos Ansiolíticos, sedativos e hipnóticos. Eles atuam na ativação do sistema inibitório cerebral conhecido como sistema GABA, que promove a depressão do sistema nervoso central, em efeito antagônico ao do antidepressivo – e semelhante àquele causado pelo consumo de bebidas alcoólicas.

Diferentemente dos antidepressivos, têm efeito imediato, porque não mudam a forma como os neurônios se comunicam. Quando se aumenta muito a dose, causam sono ao paciente.

Sabe-se que pessoas ansiosas não têm o sistema GABA bem regulado, não conseguem inibir a hiperexcitação e o modo de hipervigilância. O ansiolítico atua na redução destes estados, mas, a médio e longo prazos, perde a eficácia, o que demanda o aumento da dose para que siga fazendo efeito. Como pode levar a um quadro de dependência ou tolerância – quando para de fazer efeito -, o ansiolítico já deve ser prescrito com prazo de retirada em mente pelo médico.

Voltando aos antidepressivos, costumo usar uma metáfora quando trato da eventual paralisação em sua prescrição: é como fazer “chupeta” na bateria do carro; ao tirar os cabos que ligam meu carro ao do que está servindo para alimentar a bateria – suspendo o medicamento -, é preciso que ele siga funcionando de forma autônoma. Se o curto-circuito voltar a acontecer, terei de fazer nova “chupeta” – retomar o medicamento.

Este desmame é um processo bastante importante e só deve ser feito sob a orientação de um psiquiatra. Não se pode perder de vista que cada organismo tem uma sensibilidade própria, bem como uma condição médica de base, eventuais problemas preexistentes, que demandam dosagens específicas.

Como eu digo a meus pacientes: não é por ser uma doença crônica, que o tratamento medicamentoso tem de ser “para a vida toda”. Mudanças de estilo de vida, assim como no diabetes e na hipertensão arterial, são fundamentais para a retirada das medicações.

Marco Andre MezzasalmaMarco Andre Mezzasalma
MD, MSc, PhD e Médico Psiquiatra no
Instituto de Psiquiatria – Universidade Federal do Rio de Janeiro

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