Ser gay não é normal? O que a Psiquiatria tem a dizer sobre isso?

1991

Por David Sender
Psiquiatra, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora

“Ser Gay não é natural!”
Quantas vezes você já ouviu essa frase?

Ser homossexual definitivamente não é uma tarefa fácil – motivo pelo qual é um absurdo acreditar que alguém escolheria essa “opção”.

A sociedade ainda condena o que atualmente é considerado pela ciência como apenas uma característica de dentro da normalidade – da mesma forma que cor dos olhos, pele ou altura.

Sim, a ciência entende como normal. Mas nem sempre foi assim.

Por décadas, a orientação sexual foi considerada uma doença, por obviamente refletir a posição da sociedade. Para se ter uma idéia, a Associação Americana de Psiquiatria começou a remover a homossexualidade do quadro de doenças em 1973, mas foi somente em 1987 que realmente essa característica foi apagada da lista de diagnóstico psiquiátricos. E observe que o CID (Classificação Internacional de Doenças), que usamos no Brasil, só aderiu às mudanças em 1992. E com ressalvas.

Já pensou no que isso significa? Muita gente que não acha que a homossexualidade seja algo normal viveu nesses tempos, e reflete o que a cultura ensinou, com o respaldo da ciência.

Espere um instante. Será então que isso significa que a psiquiatria é uma farsa?
Tratamos o que a sociedade considera como doença?

Calma, não é bem assim. Pode parecer surpreendente, mas a psiquiatria é uma especialidade relativamente recente. Até os anos 70 não só os homossexuais eram classificados de forma equivocada como vários transtornos mentais, incluindo aí a esquizofrenia e o transtorno bipolar.

Mas com o avanço da ciência e dos métodos de análise científica, o papel da sociedade em determinar “o que era ou não doença” foi sendo progressivamente reduzido. De forma que começamos a nos pautar mais em evidências e menos em opiniões.

E o que as evidências mostram com relação à homossexualidade é bem claro (e reconhecido pela Associação Mundial de Psiquiatria):

– A Orientação Sexual e a Identidade de Gênero (gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e outros) são variantes normais da sexualidade humana. E que ocorrem naturalmente.

– Além disso, não há evidências científicas comprovando que a orientação sexual, inclusive a heterossexual, seja uma questão de escolha, de livre arbítrio.

– O que parece existir é um poderoso componente biológico. Provavelmente influenciado pela interação de fatores genéticos, hormonais e ambientais, como por exemplo variações hormonais durante a gestação.

– Foi observado também que a exposição ou contato com homossexuais na infância não aumentou a incidência de “pessoas se tornando homossexuais” na vida adulta.

Hoje, tanto a psiquiatria quanto a psicologia têm uma posição afirmativa quanto à homossexualidade, ou seja, o verdadeiro tratamento é encorajar a pessoa a se aceitar. E não modificar sua natureza.

Os antigos “tratamentos” para mudar a orientação sexual de uma pessoa, que alguns movimentos não científicos estão procurando ressuscitar, nunca demonstraram eficácia. Pelo contrário. Aumentaram o índice de depressão, ansiedade, suicídio e segregação social por parte de quem era submetido a essa prática coerciva. E por isso as Associações de Psiquiatria e Psicologia a baniram como método terapêutico.

Por fim, apoiar a causa LGBT (e suas derivações) não é apenas um ato humanitário. É um ato científico. E jamais significará se tornar alguém diferente do que você é, mas pode te tornar alguém ainda melhor – contribuindo para uma sociedade mais integrada, mais tolerante e mais esclarecida.

Essa foi uma homenagem ao fim de semana do Orgulho LGBT 🏳️‍🌈

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