Remédios psiquiátricos causam dependência?

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Remédios psiquiátricos causam dependência?
A resposta para essa pergunta é quase instantânea: “SIM!”. Pensar em começar uma medicação psiquiátrica pode acionar imediatamente o botão de PERIGO em nosso cérebro! Afinal ninguém quer depender de remédios!

Mas será que é desse jeito que realmente acontece? Vamos ver!

Você já usou uma dessas tigelas fundas de sopa para servir sorvete? Ou a usou para colocar ingredientes antes de cozinha-los? Concorda que soaria estranho se uma pessoa se recusasse a utilizá-la? “Não podemos comer pudim nesse pote! Foi feito apenas para sopa!”

Isso porque entendemos que não existe uma ÚNICA função para uma tigela. Somos nós quem determinamos sua função, conforme a NOSSA necessidade.

E a mesma coisa acontece com os medicamentos.
O termo REMÉDIO PSIQUIÁTRICO não é bom. Existem remédios que dentre seus diversos efeitos, podem atuar sobre sintomas mentais.

Por exemplo:
Poucas pessoas sabem, mas existe um antidepressivo antigo chamado Amitriptilina, que, além de ser muito eficaz para depressão, também é usado para incontinência urinária, além de dores crônicas. MESMO que a pessoa não esteja deprimida.

Outro exemplo é o famoso Rivotril (clonazepam) que tanta gente usa para dormir, mas que na verdade é mais indicado para pessoas com epilepsia.

Percebe?

Por isso, quando alguém me pergunta se “remédios psiquiátricos causam dependência”, sempre peço para reformularmos a pergunta para: “existem remédios usados em tratamentos psiquiátricos capazes de gerar dependência?” A resposta é sim. Embora representem uma MINORIA dentro do arsenal terapêutico disponível na psiquiatria, existem substâncias com esse potencial.

Agora reflita por um minuto:
Entramos em contato com substâncias viciantes a todo momento. Alguns com álcool, outros tabaco, mas potencial de dependência pode ser encontrado em remédios para dor e até mesmo jogos de azar, como em cassinos e bingos. E nem por isso nos recusamos a encontrar amigos em um bar temendo sairmos de lá fissurados por mais um gole de caipirinha.

Apesar do “perigo” de algumas medicações, desenvolver dependência não é algo tão simples. “Viciado” depende de diversas variáveis, como tempo usando a substância, sua dosagem, inclui também fatores genéticos, de personalidade, formas de pensar etc. Isso significa que não basta que a medicação seja potencialmente viciante, mas que haja uma interação entre esse fato e características pessoais de cada um.

Importante dizer que há uma diferença fundamental entre FICAR VICIADO EM REMÉDIOS PSIQUIÁTRICOS e PRECISAR UTILIZA-LOS POR LONGOS PERÍODOS.

Você diria que alguém que usa medicamentos para manter sua pressão arterial sob controle é viciado em usa-los? Seria não só absurdo dizer isso, como também muito perigoso! Não sabemos como nossa opinião pode repercutir em outra pessoa, especialmente se ela já estiver morrendo de vontade de abandonar seu tratamento. Talvez, fazendo isso, pode ser que em cinco ou dez anos a pessoa venha a ter um AVC, e que poderia ter sido evitado.

Por mais doloroso que possa soar para algumas pessoas, diversos transtornos psiquiátricos são tão crônicos quanto hipertensão arterial (pressão alta) e diabetes. O que significa que sem o tratamento correto, mais cedo ou mais tarde a pessoa voltará a ter crise. E quem poderá prever a gravidade da próxima?

“Dependência” ocorre classicamente com substâncias que nos prejudicam e/ou são desnecessárias. O que não é o caso de transtornos crônicos, em que utilizar a medicação NÃO pode ser chamado de dependência. E sim de CUIDADO.

Por fim, devemos lembrar que qualquer médico pode prescrever um “remédio psiquiátrico”. Mas você sabia que a psiquiatria é uma das especialidades que MENOS prescreve a classe tão conhecida por viciar, como o clonazepam (Rivotril), alprazolam (Frontal) e diazepam (valium), muito usados para dormir ou se acalmar?
Clínicos gerais, ginecologistas e cardiologistas costumam prescrever com mais facilidade e frequência do que psiquiatras. Pensando bem, faz sentido, certo? Afinal, quem mais sabe manejar sintomas mentais e seus tratamentos deve ser o especialista na mente – o psiquiatra.

Assim, caso não se sinta seguro(a) com qualquer prescrição, seja com seu clínico, seja com outra especialidade, converse abertamente com o seu psiquiatra. Os medicamentos que geram dependência costumam ter prazos para uso limitados. Mas quando se fazem necessários, é porque os BENEFÍCIOS de usa-los superam os riscos de evita-los.

DavidSender

David Sender é psiquiatra,  professor de psiquiatria da UFJF
CRM: 63497 – MG. RQE: 37311
www.espacocalmamente.com.br

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