O que fazer se o pânico vier

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Por Marco Andre Mezzasalma, psiquiatra

No artigo anterior, ao falar sobre os efeitos da pandemia da covid-19 sobre a saúde mental, abordei aquela que é minha especialidade, no campo da Psiquiatria: o transtorno de pânico, tese tanto de meu Mestrado, quanto do Doutorado. Muitas pessoas me pediram para falar mais sobre o transtorno de pânico, e volto ao tema. Naquele texto, eu dizia que, ao fim do isolamento social, e por conta daquilo que tenho visto em meus atendimentos, registraremos enorme índice de crises agudas de pânico, tão ou mais expressivo do que o de casos de depressão.

Se minha suspeita se confirmar, será necessário munir as pessoas de ‘antídotos’ para as crises ou de medidas que as ajudem a evitar a bola de neve que deriva dos ataques de pânico e, pela reincidência, os transformam em Transtorno. Estas medidas podem ir de técnicas, como Mindfulness e meditação, a ações mais corriqueiras, como, na vigência da crise, procurar uma atividade engajante e prazerosa, como ouvir música ou ler um livro, algo que tire o foco do círculo vicioso do pânico.

Mas o que é o tal ataque de pânico? Trata-se de um conjunto de sintomas físicos – como taquicardia, palpitações, ondas de calor, enjôo – e psíquicos – como medo da morte, estranheza com o ambiente ao redor (desrealização) -, que atinge um pico em dez minutos.

Já o Transtorno do Pânico se caracteriza pela ocorrência de, no mínimo, um ataque seguido no mês posterior ao do primeiro, que pode ser causado justamente pelo medo excessivo desta reincidência, ou por comportamentos mal adaptativos, como, por exemplo, o medo recorrente de passar por um túnel, por acreditar que não haveria um socorro imediato, em caso de emergência.

Nosso referencial subjetivo sempre é mais forte do que o objetivo, e independe da nossa vontade. Quando, por conta de um ataque de pânico, alguém vai ao hospital, se submete a exames que nada detectam de errado, existe uma dificuldade de aceitar este diagnóstico positivo. “Como dizem que não tenho nada, se estou me sentindo tão mal?”.

Entendemos que o primeiro passo para tratar do Transtorno é bloquear a ocorrência das crises, o que pode ser feito com medicamentos, ou com técnicas psicoterápicas, especialmente a Terapia Cognitivo Comportamental, que propõe a dessensibilização do paciente como forma de tratamento: a partir daquilo que deflagra o gatilho do pânico, o terapeuta provoca o ataque de pânico de forma controlada, e orienta o paciente sobre como controlar a situação.

Na maior parte das vezes, os sintomas se repetirão. Ao ver que, apesar do mal estar, nada de pior aconteceu, a crença de que vai morrer de forma imediata ou algo parecido se mostrará infundada. Virá exatamente da incorporação desta constatação a chave para a redução na incidência dos ataques ou, até, o fim deles.

Marco Andre MezzasalmaMarco Andre Mezzasalma
MD, MSc, PhD e Médico Psiquiatra no
Instituto de Psiquiatria – Universidade Federal do Rio de Janeiro

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