O pânico que a pandemia traz

"Em 24 anos de Psiquiatria, jamais registrei uma incidência tão grande de casos de pânico"

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Por Marco Andre Mezzasalma, psiquiatra

Era uma vez, na Grécia antiga, um deus cujo passatempo era se esconder e assustar viajantes que pelas estradas, florestas e bosques passavam. A brincadeira trazia aos andarilhos as piores sensações: falta de ar, taquicardia… Do nome do deus (Pã) e do medo que impunha a quem dele se aproximasse, originou o que conhecemos como ataque do pânico.

Mas por que abro este artigo apelando à mitologia? Porque, como Pã, a pandemia – o prefixo não tem relação com ele – da covid-19 chegou do nada, de repente, mudando nossas rotas e planos, e gerando em muitos de nós o medo de “voltar à estrada”, quando a curva da epidemia for achatada.

Muito se tem falado sobre processos depressivos que vieram à tona a partir do isolamento social, mas, em meus 24 anos de atuação em Psiquiatria, jamais registrei uma incidência tão grande de casos de transtorno de pânico como agora. Tendência, aliás, que acredito que se intensifique nos próximos meses.

O vírus e seus efeitos trouxeram à tona um de nossos medos mais primitivos, o de morrer. Um grande número de pessoas que sequer considerava o tema – em uma falsa sensação de imortalidade – se viu assustado, quer com o risco de sua própria vida, quer com o sofrimento daqueles que ama.

Sabe-se que a ansiedade é uma ferramenta importante de adaptação e sobrevivência evolutiva, mas sua exacerbação pode adquirir um contorno patológico, e causar impactos no dia a dia. Preparar-se para uma palestra que tenha sido convidado a proferir, elaborando e treinando uma apresentação, é sadio; passar mal diante da aproximação da data do evento e cancelar a apresentação mostra como a ansiedade pode ser incapacitante.

Já se aproxima a hora de as portas se reabrirem, e é importante que aprendamos a lidar com nossa ansiedade. É certo que o fim da quarentena – para quem pôde se permitir o tempo em casa – mostrará um mundo diferente, e é a esta nova realidade que todos deveremos nos adaptar. Lavar as mãos com mais frequência, usar máscara, trocar a multidão pelo petit comité… Estas e outras medidas serão incorporadas ao nosso cotidiano.

Como Pã, o coronavírus é um imponderável que assusta, mas, diferentemente dos tempos antigos, contamos hoje com exercícios e técnicas para nos ajudar a lidar com as crises. É importante cada um estar atento aos seus sinais, e buscar ajuda profissional se a situação começar a sair de controle.

Marco Andre MezzasalmaMarco Andre Mezzasalma
MD, MSc, PhD e Médico Psiquiatra no
Instituto de Psiquiatria – Universidade Federal do Rio de Janeiro

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