Me sinto triste em festas de final de ano

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Por Dr. David Sender, psiquiatra

Quase todo mundo sente alguma coisa diferente no final do ano. Só que diferente do que a maioria pensa, nem sempre é alegria. Por incrível que pareça, o Natal é uma época em que vemos os índices de depressão e ocorrências em hospitais gerais e psiquiátricos aumentarem. E por que isso acontece? E o que fazer para evitar esse fenômeno?

Em boa parte do Brasil, não temos as estações do ano muito bem definidas. Contudo, nossas festas marcam com clareza em que fase do ano estamos. Carnaval, Páscoa, Independência, Proclamação da República, Natal.

Mas curiosamente, sem percebermos, não dissociamos as passagens do ano das passagens de nossa própria vida: se o ano está para mudar, alguma etapa em nossa vida deveria estar sendo finalizada. Por isso, para tanta gente, ao invés do final do ano ser um momento de celebração, acaba se tornando um momento de alta pressão.

As propagandas na televisão, nas mídias sociais e até nos supermercados pressionam a todos para se agruparem em família e celebrarem com muita felicidade. Só que, para muita gente, o natal está associado a lembranças muitas vezes dolorosas, e que estavam “em paz” até chegar o final do ano.

Ainda por cima, a alegria dos outros estampada em cada esquina para todo o mundo, para muita gente serve como lembrete das faltas em suas próprias vidas. Especialmente quando temos que lidar com perdas, lutos, rupturas de relacionamento, brigas, solidão ou algum transtorno mental.

Diversas pesquisas mostraram que as principais causas de tristeza nesta época do ano se deve ao excesso de expectativas e a um aumento da reflexividade das pessoas. Só que não precisa ser assim. À começar por nos atentarmos para o nosso hábito (mais do que equivocado) de comparação.

Talvez seja uma novidade para você, mas não há UMA família perfeita. Nenhuma. Aliás, a maioria não apenas é imperfeita como costuma ser muito difícil de ser tolerada por mais de um de seus integrantes. Por isso temos que ser muito críticos com o que vemos no dia a dia, pois NENHUMA FOTOGRAFIA é capaz de captar aquilo que se encontra por trás da câmera: um mal estar entre irmãos, uma inconveniência falada na mesa, ou uma grosseria antes da ceia.

Ao invés disso, podemos agradecer pelo que de fato TEMOS:

Um lugar para estarmos… mesmo que seja na casa de um amigo.
Um familiar… que veio de longe ou se preocupou em preparar um prato típico.
Uma mensagem… que veio de alguém que teve o carinho de se lembrar de nós.
E, principalmente, uma lembrança… Quando nos recordamos de alguém, especialmente em conjunto com pessoas que compartilharam da mesma experiência que nós, trazemos à vida aqueles que não estão fisicamente conosco.

O ditado “Tudo tem um começo, um meio e um fim…” não termina aí. Depois do fim sempre há um recomeço. Por isso, que 2017 não acabe, mas se recicle, para que você faça o melhor proveito possível do que aprendeu!
DavidSender

David Sender é psiquiatra,  professor de psiquiatria da UFJF
CRM: 63497 – MG. RQE: 37311
www.espacocalmamente.com.br

 

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