Com medo, profissionais escondem transtornos de ansiedade no trabalho

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(Por Fernanda Perrin, Folha de S.Paulo)

Não vai dar certo. Não vai dar tempo. Não vou conseguir. Coração acelerado, tremor nas mãos, suor. Medo.

A antecipação de perigos é o traço marcante da ansiedade. Graças a esse estado, o corpo fica em alerta para reagir rapidamente a uma ameaça – que pode ser uma reunião – e o ser humano se organiza melhor para lidar com ela. Mas, quando o perigo e a ansiedade continua, constante e excessiva, ela transforma-se na ameaça.

“São tantas preocupações que chega um momento em que você explode”, diz o
assistente de planejamento Deivison de Souza, 22. Há quatro meses, ele começou a ter crises de ansiedade, quando sente a pressão subirmedo de morrer. A pior aconteceu durante o trabalho. Por recomendação dos colegas, ele procurou ajuda.

É comum, porém, que o ansioso esconda o problema da empresa porque sente vergonha e teme que duvidem da sua competência, diz a psicóloga Michelle Bernardo, presidente da Associação dos Portadores de Transtornos de Ansiedade (Aporta). Mas, na maioria dos casos, o medo não tem fundamento: quem se abre encontra apoio, diz Bernardo.

Shirlei Barros, 37, desceu apressada os oito andares do prédio onde trabalhava, em São Paulo, chegou ao térreo e paralisou. Só saiu de lá uma hora depois, quando um colega
a viu e avisou sua chefe, que foi buscá-la. “Eu ficava o dia inteiro em uma sala fechada, nem a porta ficava aberta. Isso foi o gatilho. Até então, eu nem sabia que tinha ansiedade”, diz.

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Cerca de 30% dos habitantes de São Paulo têm algum tipo de transtorno, segundo a pesquisa “Distúrbios Mentais em Megacidades”, de 2012. Entre eles, os de ansiedade são os mais comuns, atingindo 1 em cada 5 pessoas. Quando descobriu o problema, Barros teve medo de sofrer preconceito dos colegas, mas diz ter sido bem acolhida, principalmente pela sua chefe, portadora de síndrome do pânico, também um transtorno de ansiedade.

O medicamento, porém, fez com que Barros ficasse com a fala pastosa, o que atrapalhava sua função de relacionamento com clientes. Ela se afastou, então, por dois meses. Voltou
ao trabalho normalmente depois. Demitida em fevereiro, em razão da crise, ela hoje canta na banda Tri Ângulo com o marido.

Quando Alex Costa, 37, teve sua primeira crise, há 11 anos, não se falava abertamente sobre o problema. “Era difícil traduzir aquilo para mim, imagina para os outros.” O administrador de empresas largou a carreira aos 26 anos e nunca mais conseguiu trabalhar em um ambiente corporativo. “Quem olha de fora e me vê saudável acha que eu poderia
ser bem sucedido, dar toda uma qualidade de vida para os meus filhos… Eu sofro com isso.” Hoje, ele diz ser “do lar”.

Existe um mito em torno do executivo, visto como alguém imune aos altos e baixos da vida,
avalia o empresário Adriano Silva, 44, fundador do Projeto Draft, sobre economia criativa.
“Ninguém fala, mas toda quarta toma um Rivotril pra sobreviver até sexta.” Contra o tabu, ele lançou o livro “Ansiedade Corporativa” (Ed. Rocco), sobre sua convivência com o transtorno.

Para o psiquiatra Márcio Bernik, do Ambulatório de Ansiedade do Hospital das Clínicas (Amban), existe um recurso de meritocracia a qualquer custo entre as empresas, em que os fortes sobrevivem e os fracos sucumbem, que gera ansiedade. A pressão constante, por sua vez, não permite que o corpo retorne ao estado de equilíbrio, que deve seguir um momento de estresse. Assim, fica-se sempre em alerta.

“Como a função do corpo é sobreviver, ele vai dar um jeito de te desacelerar. Para isso, vai usar suas vulnerabilidades, como a ansiedade”, diz a psicóloga Michelle Bernardo, da Aporta, que oferece tratamento gratuito em parceria com o Amban e a Faculdade Paulista de Serviço Social.

Já para Elisa Kozasa, do Instituto do Cérebro do Hospital Albert Einstein, o estresse causado pelo trabalho a ponto te desencadear a ansiedade, não é pior hoje do que foi no passado. Segundo a neurocientista, a questão central é a habilidade de lidar com ele.

Independentemente da causa, é importante comunicar a empresa de que se está passando por um problema, sobretudo quando o desempenho profissional é prejudicado, diz Marcelo Olivieri, da consultoria Talenses. Isso protege o funcionário de ser mal avaliado, o que pode
formar uma bola de neve de ansiedade.

TRATAMENTO

Quando a ansiedade passa a gerar sofrimento excessivo e prejudicar o dia a dia, a pessoa deve buscar um psiquiatra que poderá orientar sobre a necessidade de tomar medicamentos e outras formas de tratamento, como terapia, exercícios e ioga.

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A respiração acelerada é o primeiro sinal de crise, afirma a psicóloga Michelle Bernardo, presidente da Aporta. Para ajudar a controlá-la, a entidade oferece aulas semanais e gratuitas de kundalini ioga, uma linha específica para esse transtorno, em parceria com o Ambulatório de Ansiedade do Hospital das Clínicas e Faculdade Paulista de Serviço Social. Interessados devem escrever para grupodeapoio@aporta.org.br.

Embora a linha kundalini seja específica, qualquer modalidade de ioga contribui com o tratamento, diz a neurocientista Elisa Kozasa, do Instituto do Cérebro do Hospital Albert Einstein. Ainda no campo zen, ela recomenda meditação. As práticas ajudam a aliviar os sintomas, mas é indispensável fazer terapia com um profissional para o sucesso da recuperação, diz Bernardo.

Segundo o psiquiatra Márcio Bernik, do Ambulatório do Hospital das Clínicas (Amban), a recuperação da síndrome do pânico é mais rápida e pode levar cerca de um ano. Já a ansiedade generalizada e as fobias sociais podem levar anos para serem tratadas.

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Especialistas dão dicas para aliviar a ansiedade e controlar crises:

Meditação
Sente-se em um lugar tranquilo, feche os olhos, fique ereto e respire profundamente. Comece com intervalos entre 3 e 5 minutos, prolongando por mais tempo.

Ioga
A prática relaxa o corpo, alivia a tensão e melhora a respiração. A linha kundalini é específica para tratar ansiedade e [em São Paulo] pode ser feita gratuitamente na Associação dos
Portadores de Transtornos de Ansiedade.

Exercícios Físicos
Essas atividades contribuem com a liberação de hormônios, como a serotonina, que regula o humor e o sono, além de aliviar a tensão do corpo.

Respiração
Em momentos de crise, para combater a sensação de falta de ar, um dos exercícios recomendados é inspirar durante 4 segundos, segurar o ar por 2 e expirar ao longo de 6 a 8 segundos, usando o diafragma.

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