Diante de uma doença, oração é suficiente?

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“Para alimentar meu senso crítico, meu lado profissional e quem eu escolho ser no mundo, eu leio. Eu leio muito e de tudo. Especificamente na internet, quando acesso alguma matéria, tenho mania de ler os comentários. Sou “a louca dos comentários”!!! Já até prometi para mim mesma que vou parar com isso, pois acabo ficando bem nervosa. Mas não paro! Vai saber…

E toda vez que estou lendo materiais relacionados a doenças de cunho emocional, vejo nos comentários muitas pessoas falando que “falta Deus no coração” daqueles que adoecem.

Aí escolhi falar rapidinho desses dois caras aí das fotos. Acho que não falta Deus no coração deles, né?

Padre Marcelo Rossi sofreu de um quadro depressivo importante, subsequente a uma anorexia. Ele afirmou em entrevistas que, antes de adoecer, achava que depressão era frescura. Sentiu na pele que não, não é frescura. É doença.

Padre Fábio de Melo falou sobre a Síndrome do Pânico que o acometeu no último mês. Ele disse que ficou uma semana trancado em casa, com sensação de morte e tristeza profunda. Contou que nunca chorou tanto em sua vida e que pensa em fazer terapia. No momento, para conseguir cumprir com sua agenda de compromissos, encontra-se medicado.

Sim, estamos falando de psicoterapia e uso de psicotrópicos. Não estamos falando de Deus no coração e orações. Também não estou falando que o suporte religioso não seja válido. Ele é. E muito, para algumas pessoas. Mas quando estamos falando de um quadro patológico, oração não é suficiente. E os dois exemplos citados provam isso em alguma medida, não?

Se alguém está com um braço amputado, sangrando muito e berrando de dor, ninguém manda ele ter Deus no coração que passa. Se alguém estiver sofrendo um infarto, ninguém diz para rezar bastante que o coração volta ao normal. Por que, quando se trata de doenças mentais, o raciocínio tem que ser diferente? Por que, ao falar de ansiedade, depressão, anorexia, esquizofrenia e tantos outros quadros promotores de intenso sofrimento, o que falta é Deus?

Vejam bem, quando se afirma que falta Deus no coração, o que se está dizendo, na verdade, é que falta empenho daquele sujeito em superar aquele problema. É a pessoa que reza pouco. É a pessoa que está se entregando para aspectos mundanos e atentando menos para a religião. A pessoa sofre porque não está perto de Deus. E isso é culpa dela! Para encurtar o papo: culpabiliza-se a vítima.

A pessoa que sofre com uma doença de cunho emocional precisa de ajuda profissional. Assim como aquele com o braço amputado vai precisar de um cirurgião e o cara infartado, de um cardiologista. Os profissionais da saúde mental (Psicologia e Psiquiatria) estão aí para isso. Enquanto não pararmos com este discurso culpabilizante, o preconceito com estas áreas do conhecimento não vai diminuir e a procura por ajuda especializada vai continuar sofrendo um impacto negativo.

Por fim, ajuda profissional no campo da saúde mental só funciona bem se suporte social e familiar é provido conjuntamente. Assim, ao invés de falar que sofrimento emocional é falta de Deus, procure confortar aquele que sofre. Ofereça ajuda. Ofereça escuta sem julgamento. O amor opera verdadeiros milagres.”

(Fonte: Diálogos Psicológicos)

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