Coronavírus: ansiedade é adversária perigosa para atletas

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Em quarentena na academia, lutador de MMA Emerson Rios intensifica trabalho psicológico para combater angústia com falta de lutas

Por Diogo Dantas – O Globo

Isolado, não em casa, mas na academia onde treina em Curitiba, o atleta de MMA Emerson Rios exercita a mente para se manter focado depois de ter suas lutas na categoria até 66 quilos canceladas em função da pandemia de coronavírus.

Natural de Pintadas, no interior da Bahia, o lutador deixou o Rio, onde fez bico como motorista de aplicativo, e agora também abriu mão dos trabalhos como segurança, que o ajudavam a fazer uma boa alimentação.

Emerson Rios no quarto da academia em que está isolado Foto: Arquivo Pessoal
Emerson Rios no quarto da academia em que está isolado Foto: Arquivo Pessoal

Aos 31 anos, recebe ajuda financeira da família para seguir em busca do sonho de chegar ao UFC, e tem suporte psicológico de um projeto comunitário da Uerj que atende esportistas de variadas modalidades.

O grupo de profissionais comandado pelo psicólogo Alberto Filgueiras oferece atendimento gratuito através do Laboratório de Neuropsicologia Cognitiva e Esportiva, o LANCE há quatro anos. O trabalho desenvolvido com Emerson começou em 2018 e agora se intensificou, diante das restrições para treinamento. Em vez de quatro sessões por dia, são no máximo dois treinos físicos.

— Fazia wrestling, boxe, crossfit e bicicleta, de segunda a sábado. Com a quarentena, um ou dois treinos no máximo, para manter a imunidade e o peso — conta Emerson, que passou a dar mais atenção ao trabalho mental e não sabe se conseguirá cumprir as quatro lutas previstas para o ano.

— Agora sinto mais ansiedade, como se não estivesse entregando 100%. Essa parte psicológica é complicada. Até porque só ganho dinheiro quando luto, e cancelaram tudo — preocupa-se.

—Aí é que entra o trabalho psicológico. Como precisa se manter ativo e não pode, o profissional foca no bem estar emocional.

Chance de trauma

Para cumprir os objetivos, técnicas de integração entre mente e corpo são desenvolvidas para dar mais resistência mental e evitar que não haja queda de rendimento físico na sequência. Ou até mesmo um indesejável quadro de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).

— Durante a quarentena o trabalho do psicólogo tem que mudar. Ele tem que estar mais atento a sintomas de estresse agudo. E suas possíveis consequências, como raiva, desesperança, melancolia, agitação exagerada, preguiça exagerada e preocupações excessivas — explica Alberto, que faz essas observações nas videoconferências com o lutador, duas vezes na semana.

— Esse é um momento de estresse prolongado. Para o atleta, ainda mais, dado que seu maior objetivo, que é competir, foi suspenso — completa o especialista.

Além dos atendimentos, Emerson Rios também pratica meditação quatro vezes na semana e leituras diárias. Mesmo restrito a um quarto acanhado no alojamento, tem a companhia de atletas que iniciaram o isolamento em conjunto. Quem foi para casa não voltou como prevenção à contaminação.

— Alojamento é grande, mas é a mesma coisa de estar em casa, fazendo as coisas mais separado, para manter o foco — relata o lutador baiano, que mantém a confiança de que vencerá mais essa luta. Até agora, são nove, cinco vitórias por nocaute no primeiro round.

— Entrei nisso decidido que seria até o ultimo respiro. Estou preparado — diz.

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