Carta aos familiares de pessoas com ansiedade e transtorno do pânico

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Por Eduardo Correia, do Pânico Terapia

Controlar a ansiedade e a síndrome do pânico vai além da terapia alternativa, da psicoterapia, da psiquiatria ou dos remédios. A busca precisa ser diária – do início da manhã até o fim do dia – seja no trabalho, na faculdade ou em casa. São as pequenas mudanças de hábitos que ajudarão no tratamento contra os transtornos. E, nestes momentos, a família tem um papel importante.

Muitas pessoas com ansiedade já ouviram uma crítica ou um diagnóstico totalmente errado de um familiar. Eu mesmo ouvi frases como “você precisar arrumar algo pra fazer”, “isso aí é falta de trabalho”, “vai arrumar uma namorada(o)”, “isso pode ser uma doença grave”. É unanimidade entre os especialistas: a ajuda da família é necessária. Mas não com esse tipo de atitude.

Em uma das primeiras vezes que tive ataque do pânico, há cinco anos, fiquei uma semana “perdido” junto com familiares. Ao mesmo tempo em que ninguém sabia o que acontecia, uma enxurrada de comentários aumentavam os sintomas. Foi uma verdadeira saga por hospitais e pessoas que faziam garrafadas (remédios caseiros feitos a partir de ervas). De tiriça – como a hepatite é conhecida popularmente – a gripe mal curada. Tinha de tudo. Além disso, eu ouvia que poderia ser estresse ou falta de algo para fazer.

Não é por mal que as pessoas mais próximas têm essa atitude. A falta de conhecimento leva a isso. Por mais que atualmente a ansiedade e a síndrome do pânico ganham mais repercussão no país, ainda não são tão conhecidas e, como consequência, são confundidas com outra doença. Por isso, é importante que não apenas o ansioso leia sobre os transtornos, mas os familiares também.

Muito interessante é a fala do psiquiatra Márcio Bernik, coordenador do Ambulatório de Ansiedade do Hospital das Clínicas da USP, no site do Drauzio Varella: “O pânico, como todas as doenças psiquiátricas, não dá pintas vermelhas na cara como o sarampo, nem 39º C de febre. Por isso, é muito comum a família entendê-lo como uma forma de fraqueza moral e de falta de personalidade e reagir da seguinte maneira: eu também não gosto de trânsito, mas vou trabalhar todos os dias”.

O Pânico Terapia elaborou 10 passos voltados para a família de pessoas com ansiedade e síndrome do pânico. São dicas simples, mas muito importantes. É uma espécie de carta aos parentes.

Nada de doença grave. Já temos que nos preocupar com pensamentos negativos após a primeira crise. Não é preciso alimentar ainda mais o medo. Incentive a ir ao médico para tirar o receio de que seja uma doença cardíaca, por exemplo. Há duas maneiras de falar: “pode ser algo grave, vamos ao hospital” (errado) ou “calma, o que você está sentindo e qual é o medo? Vamos marcar uma consulta para fazer exames” (correto).

Eu não fico sem fazer nada. Nada mais cruel do que falar para o ansioso que é falta de trabalho. Primeiro, em muitos casos a ansiedade está ligada à infância. Ou seja, não é algo que começa do nada. Pode ser um trauma, por exemplo. Há muitos fatores que um especialista encontrará com o tratamento adequado. Acredite: esse tipo de transtorno já foi muito estudado e não é algo que apenas uma pessoa está sentindo.

Não é mal olhado. Cada um acredita no que quiser, mas não é recomendado deixar de procurar um tratamento por achar que é apenas uma energia negativa ou outra crença. É preciso encorajar a pessoa a procurar um tratamento adequado e mudanças de hábito: praticar mais esporte, fazer análise, sair mais etc.

Quero conversar mais. Procure conhecer mais sobre ansiedade, síndrome do pânico ou até mesmo depressão para conversar sobre o que está acontecendo. É preciso deixar claro para a pessoa o que está acontecendo com o corpo e a mente dela. É sempre bom ouvir alguém perguntar se está tudo bem ou como está se sentindo.

Sair faz bem. Pergunte se o familiar não quer sair um pouco com os amigos. Dependendo da situação, isso vai ajudar bastante. É sempre importante o apoio.

Psiquiatras, psicólogos ou psicanalistas não são para “loucos”. O maior mito é que esses profissionais atendem apenas transtornos psicóticos graves. Não sabemos em qual parte da história foi construída essa mentira, mas está totalmente errada. São especialistas que ajudarão de várias maneiras a lidar com a ansiedade.

Pegue junto. Depois de entender melhor como funcionam os transtornos e os profissionais que ajudam, comece a participar mais da vida de seu familiar que está com ansiedade. Incentive o tratamento, acompanhe mais a rotina (sem pressão, é claro), converse mais sobre o que está acontecendo.

Menos proteção, ok? Há diferença entre acompanhar o dia a dia do ansioso e ser superprotetor. Não precisa dizer o que fazer a todo o momento. Isso faz aumentar a sensação de ansiedade. Cada um escolhe o quer fazer (esporte, estudar). Antes de contrariar, apoie e vá junto.

“Quando houver uma crise, avise”. Toda pessoa que passou por uma crise gostaria de ouvir isso. É essencial que ela não permaneça sozinha.

Cuidado com as críticas. Não somos feitos de vidro e uma crítica não é uma pedra. O ansioso pode sofrer críticas como qualquer outra pessoa. Isso não vai mudar ou aumentar o transtorno. Porém, é importante pensar antes de falar, pois algumas críticas são nocivas ao tratamento. Principalmente aquelas com relação ao fim das crises. “As crises ainda não acabaram?”, “Você está fazendo algo errado”, “Esse tratamento não está te ajudando”, “Você vai perder muitas coisas com essa ansiedade”.

1 COMENTÁRIO

  1. Queria saber se existe algum site que contemple orientações e fórum de discussão para familiares de pessoas com TAG. Muitas vezes é difícil entender os comportamentos de pessoas com TAG. Podemos sofrer tanto quanto a própria portadora da TAG.

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