“Antidepressivos já salvaram milhões de vidas em todo o planeta”, afirma psiquiatra

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Muito sofrimento seria eliminado do mundo se esses preconceitos desaparecessem num passe de mágica

(por Dr. Kalil Duailibi*)

Quando a atriz Brooke Shields, aos 35 anos de idade, depois de se submeter aos tratamentos (e à angústia da espera pelo resultado) da reprodução assistida para conseguir ter seu primeiro filho, passou pela dolorosa experiência da depressão pós parto, resolveu escrever um livro sobre esse episódio. No Brasil, o livro chamou-se “Depois do Parto, a Dor”.

A depressão pós parto é uma doença – e não um estado de espírito – que atinge a espantosa cifra de 10% das mulheres grávidas no mundo.
Brooke Shields, com seu livro, levantou o véu de indiferença e de ignorância que muitas vezes encobre o assunto levando a interpretações errôneas e sofrimentos desnecessários às famílias envolvidas. No entanto, entre os muitos aplausos que a atriz recebeu por sua obra, uma crítica de grande repercussão: a do ator Tom Cruise.

Cruise, a propósito do tratamento que salvou Brooke, disse que todo mundo sabe que “a psiquiatria é uma pseudociência” e que ela poderia ter se curado “sem usar drogas”, referindo-se aos antidepressivos que Brooke tomou durante o tratamento da sua doença.
Começamos a nossa narrativa por esse exemplo para mostrar o quanto existe de preconceito, mesmo entre pessoas supostamente esclarecidas, contra os medicamentos psiquiátricos e contra a própria psiquiatria. A infeliz declaração do astro hollywoodiano serviu apenas para reforçar ainda mais esses preconceitos.

Os antidepressivos certamente já salvaram milhões de vidas em todo o planeta. Antes da descoberta desses medicamentos, pouco havia a ser feito para um paciente que chegava ao consultório médico quando já estava prestes a tirar a própria vida. Muitas vezes não há tempo para esperar que a psicoterapia e os tais tratamentos alternativos, também citados por Cruise, surtam seus efeitos.

Chamar a psiquiatria de pseudociência é outro engano tão grave e antiquado quanto acreditar que o psiquiatra é o “médico de loucos”.
Muito sofrimento seria eliminado do mundo se esses preconceitos desaparecessem num passe de mágica, por exemplo, agora. Crimes passionais, violência doméstica e sexual são muitas vezes a manifestação prática de estados mentais alterados que não são loucura mas podem ser doença, podem ser qualquer um dos ramos da árvore dos transtornos afetivos que, por milênios, a humanidade confundiu com defeitos de caráter, de personalidade, de formação… e que hoje a ciência médica reconhece como alterações bioquímicas ocorridas no cérebro da mesma forma que ocorrem em outros órgãos do nosso corpo.

Afirmar que uma depressão por parto ou qualquer outro transtorno afetivo possa ser sanado dispensando os medicamentos e adotando práticas do que hoje em dia se convencionou chamar de “vida saudável”, é o mesmo que dizer que a mudança de hábitos vai curar um câncer, relegando a coadjuvantes os enormes avanços das terapias medicamentosas da oncologia. Se são surpreendentes os avanços da quimioterapia na luta contra o câncer, também o são os avanços das terapias medicamentosas de uso psiquiátrico. Por isso é preciso repensar e rever os preconceitos que ainda trazemos em nós sobre a psiquiatria e os medicamentos psiquiátricos.

Afinal, psiquiatras (e suas prescrições medicamentosas) também salvam vidas.

(fonte: site Saúde & Livros)

Kalil Duailibi (reprodução da internet)
Kalil Duailibi (reprodução da internet)

*Kalil Duailibi é psiquiatra, professor titular do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina de Santo Amaro (Unisa) e ex-coordenador de Saúde Mental da Secretaria de Saúde do Município de São Paulo.

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