“Ansiedade Corporativa – Confissões sobre estresse e depressão no trabalho e na vida”

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Em “Ansiedade Corporativa – Confissõs sobre estresse e depressão no trabalho e na vida” (Rocco, 2015), Adriano Silva volta no tempo para recordar a trajetória do jovem saído do interior do Rio Grande do Sul que vai cursar faculdade em Porto Alegre para, a partir daí, seguir seu rumo: São Paulo, Japão, Rio de Janeiro, entre outras paradas. Dos empregos mal pagos de início de carreira à primeira passagem por um cargo de chefia, nenhuma etapa é ou foi cumprida sem alguma dose de angústia, medo ou ansiedade.

Para qualquer situação, a sugestão do autor é não colocar a própria felicidade no colo da outra pessoa. Adriano é categórico: enfrente seus medos. Encare tudo aquilo que é capaz de paralisar e não deixe que o pânico assuma o controle. Contra-ataque – esse é o lema do autor. Ansiedade, depressão, tristeza, angústia, falta de estima por si mesmo, o enorme receio de sair do lugar são algumas das sensações mais comuns para quem vive o mundo corporativo e fora dele também. Sair da inércia e aproveitar o tempo deve ser prioridade sempre. Afinal, a vida é um romance a ser escrito diariamente. Não há outra saída se não reagir. Portanto, mexa-se. E comece hoje. Não há nada a perder. É o conselho de Adriano Silva. (fonte: Editora Rocco e projeto Draft)

Confira um trecho do livro:

“É ridículo, é estúpido, é cruel. Mas é verdade. A ansiedade é um processo doentio que pode fazer o sujeito sofrer mais do que uma doença física.

O ansioso não sofre com a realidade, mas com a expectativa. O ansioso se lastima menos com uma situação real, ainda que terrível, do que com a antecipação dessa situação, que ele sofre terrivelmente.

O ansioso prefere a falência do seu empreendimento, uma situação concreta para ele enfrentar, do que uma possibilidade de sucesso, de onde advém toda sua angústia e sua insônia.

E qual é a primeira coisa que o ansioso fará, logo depois de resolvida uma situação que atiçava a sua ansiedade? Vai recusar o momento de relaxamento e procurar, ou engendrar, tão logo quanto possível, outra situação que lhe sirva de fonte de desassossego, para voltar a roer as unhas e produzir suco gástrico.

Mal atingem uma determinada meta, os ansiosos já se impõem um novo desafio. De preferência mais espinhoso e inexequível. Ou seja: já começam a sofrer de novo. Sofrimento non stop. Ansiosos são estoicos. Mais do que isso: são masoquistas.

Eis o que o ansioso não percebe: o sucesso não é uma meta, é um processo. Estamos sempre em movimento e o êxito não é senão continuar caminhando com alegria, esperança e serenidade em direção a ele. O sucesso não é um patamar fixo a ser alcançado – mas um movimento diário, em que a única coisa garantida é a necessidade de continuar em movimento, andando, um passo de cada vez, um tombo hoje, uma vitória amanhã.

Os ansiosos se esfalfam pelo caminho. Colocam toda a recompensa pessoal pelo sacrifício na linha de chegada. Não apreciam a frase, muitas vezes bonita, que vão escrevendo pela vida – estão sempre afogueados por cravar o ponto final na sentença, como se só ele importasse. Uma coisa maluca. Ansiosos aceleram tanto que se esquecem de apreciar a paisagem. De olho da bandeirada final, nem sabem direito por onde passaram. Sempre haverá lacunas em nossa trajetória. Espaços vazios a serem preenchidos só somem da vida da gente quando a vida da gente termina.

Mas o ansioso não reconhece o quanto já conquistou. Não celebra o tanto que caminhou. Está sempre em dívida consigo mesmo, se sentindo atrasado. A ansiedade cobre a visão do sujeito com uma névoa de pessimismo – ele passa a enxergar somente as tragédias possíveis, só o que pode não dar certo, e as decepções e rejeições que ele tem certeza que pontuarão seu caminho. 

O ansioso é um escravo das expectativas que há sobre ele. Seja a que vem dos outros. Seja a que brota dele mesmo – aquela que ele imagina que os outros nutrem e que, assim, incorpora ferozmente à sua rotina. Dê muita responsabilidade a um ansioso crônico e você terá fabricado um depressivo. Deposite grandes expectativas num ansioso limítrofe e você terá criado um suicida em potencial.

Peraí… ansiosos são depressivos? Se uns sofrem por querer antecipar tudo e por acelerar até o limite, enquanto outros sofrem pela letargia diante da vida e pelo desgosto diante das oportunidades, eles não seriam diametralmente opostos?

Aprendi esses dias: o ansioso é um cara adrenalinérgico (nome oficial de quem vive se bombardeando com adrenalina). Só que uma hora o sujeito desaba com tanto hormônio. Funciona como uma espécie de botão de desligar do corpo, devastado pelas descargas químicas. De tanto ficar ligado, o sujeito cai em depressão. Como uma compensação do organismo, o sono letárgico depressivo vem como reação aos píncaros de atenção e de vigília para onde o sujeito se levou com a sua ansiedade.

Nessa perspectiva, a depressão não seria a tristeza absoluta, vinda do espaço sideral como um castigo cósmico aos muito melancólicos, mas como uma resposta do organismo a estados de alerta e de tensão elevadíssimos, sustentados por um tempo longo demais.

A ansiedade é o novo mal do século. Há psicólogos dizendo que quase todos os males psicológicos têm na base a ansiedade. Eis o nome completo da loba: ansiedade antecipatória. Algozes como depressão e crise do pânico seriam faces diferentes desse mau hábito da mente de olhar para o futuro e para a vida ao redor com a sanha de controlá-los, de imunizá-los, de ordená-los, de castrá-los, de securitizá-los.

A ansiedade antecipatória aflige dez entre dez pessoas, impactando-as com níveis diferentes de sofrimento psíquico. Vai desde quem dorme mal por conta de um compromisso no dia seguinte até quem desiste em definitivo da vida por sentir que não é mais possível suportar o grau de incertezas que ela impõe.

Os psicólogos ensinam alguns exercícios bacanas para quem quiser olhar esse bicho cabeludo nos olhos – e enfrentá-lo. Exercícios que passam por mudanças no funcionamento do indivíduo no seu dia-a-dia. Sim, é possível vencer a ansiedade. Mas para deixar de sofrer você terá de estar disposto a alterar de verdade alguns hábitos. Porque a ansiedade advém do comportamento – e é lá que você precisa debelá-la.

Um dos pontos é focar no processo e não na falta. Trata-se de não jogar a satisfação somente na conclusão da tarefa, ou as alegrias apenas no atingimento de uma meta, mas obter prazer durante, e compreender que não há ponto final em nada que vivemos – tudo é fluxo.

Uma coisa conecta na outra, um evento se entrelaça ao próximo, pessoas e problemas e soluções estão sempre gerando intersecções que se formam, e que desaparecem no momento seguinte, à medida que vamos vivendo. Então, só é possível ser feliz se percebermos esse movimento ininterrupto e decidirmos obter prazer no próprio processo. Ainda que muitas vezes ele pareça – e seja mesmo – um redemoinho.

O ansioso foca sempre no que ainda não está ganho e garantido. E essa conta será sempre negativa. Porque nada está ganho e nada está garantido. Daí o negativismo do ansioso, que só consegue ir adiante fazendo essa conta – e se desesperando diante das variáveis incontroláveis, e dos riscos inevitáveis, que sempre serão maiores do que as certezas.

O que ainda falta realizar representará sempre um campo maior do que aquilo que já foi realizado. Se esse for o parâmetro, estaremos fadados ao sentimento eterno de frustração – mesmo tendo construído obras magníficas por onde passamos.

A vida não é chegar, a vida é caminhar. Então curta o andar da carruagem, a grandeza da trajetória. Aprenda a extrair prazer e compensações do seu dia-a-dia. De que vale passar a vida toda agastado, sempre chutando a felicidade e a satisfação para o dia seguinte?

Viva hoje. Aproveite a jornada. Enjoy the ride. É aqui que a vida acontece.” 

(foto: reprodução da internet)
(foto: reprodução da internet)

Adriano Silva é jornalista e empresário com mais de duas décadas de experiência em cargos de direção em corporações como Editora Abril e TV Globo.

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1 COMENTÁRIO

  1. Concordo em parte com o Adriano, o ansioso acima do normal é colocado por ele como culpado de estar doente, diga pro portador do Hiv encarar a vida com otimismo, sem usar medicação, ou o hipertenso, canceroso, diabético, ou peça pro cadeirante se esforçar e andar. A meu caro somos assim imperfeitos mesmo, mas não réus.

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